16 de novembro de 2012

Artigo do Arcebispo: Prezado Zaqueu


Dom Murilo S.R. Krieger

Escrevo-lhe, Zaqueu, mesmo sem saber se quando você morava na cidade de Jericó alguém lhe escreveu uma carta. Em primeiro lugar, porque isso não era comum naquela época. E se houve quem lhe escrevesse, duvido que tenha recebido alguma resposta, uma vez que você não era escritor ou poeta, não era de lidar com palavras. Tudo indica que você foi um homem de negócios. Normalmente, quem lida com números não gosta de escrever. Talvez você gostasse mesmo era de conversar, de contar histórias. E que história mais interessante do que a que resume a sua vida?  Detalhes do encontro que você teve com Jesus nos foram relatados por Lucas, no capítulo 19 de seu Evangelho. Lucas, que fez pesquisas antes de registrar as palavras e os gestos de Jesus, procurou você, Zaqueu, para uma entrevista ou ouviu sua história de alguém?
Em primeiro lugar, uma referência a seu nome. Em hebraico, o nome Zaqueu é “zakkai”. Seria, pois, idêntico ao que encontramos em Esdras 2,9 – “Zacai”? Ou o mesmo que Zabai, que aparece em Neemias 2,20? Em grego seu nome é “zacchaios”, e aparece no segundo livro dos Macabeus 10,19. Desculpe minha sinceridade, mas seu nome não é muito popular, não. Para falar a verdade, nunca, em toda a minha vida, encontrei uma pessoa com nome igual.
Escreve São Lucas que você era “chefe dos publicanos e muito rico”; que procurava ver Jesus e não conseguia, pois era baixinho. Então, subiu em uma árvore, para conseguir enxergá-lo. Mas tudo isso é “moldura” e ninguém se lembraria desses detalhes, se Jesus não lhe tivesse dirigido o olhar. Como, naquele momento, você deve ter-se sentido importante! Afinal, o famoso Jesus dignou-se olhar em sua direção! Agora, eu gostaria mesmo era de saber o que você sentiu quando o Mestre lhe disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar em tua casa!”. Conte-me: O que você pensou naquela hora? Segundo a descrição de Lucas, você “desceu depressa” e recebeu Jesus com alegria em sua casa.  Sua alegria deve ter sido tão grande que nem deve ter dado importância aos comentários que logo surgiram: “Todos começaram a murmurar: ´Foi hospedar-se na casa de um pecador!´” Ou, talvez, foram justamente esses comentários que o fizeram se convencer da grandeza do gesto de Jesus, que se dignou entrar em sua casa, isto é, na casa de um pecador. Lucas comenta que, logo em seguida, você se pôs de pé e disse a Jesus: “Senhor, a metade dos meus bens darei aos pobres e, se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais”.
Pois bem, Zaqueu, você me testemunha quanto é grande, imensa, infinita a misericórdia do Senhor. Aprendo com você que Jesus volta seu olhar para cada pessoa que sinta o desejo de conhecê-lo – e, mesmo, para quem nem se interessa por ele. Como seria importante, Zaqueu, se tivéssemos a sua capacidade de perceber o que há nesse olhar do Senhor, para tomar decisões tão generosas como a que você tomou!
Outra lição que você me dá, caro amigo, diz respeito à maneira como aconteceu sua conversão. Você entregou a metade de seus bens aos pobres e, aos que havia prejudicado (você mesmo admitiu, pois, que sua fama de “pecador” não era gratuita!…), devolveu quatro vezes mais. Que coração generoso e, uma vez convertido, que coração justo! O que você sentiu, depois de ter ouvido Jesus comentar: “Hoje aconteceu a salvação para esta casa… Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”?  Mesmo que depois desse episódio os Evangelhos não falem mais de você, posso “vê-lo” no meio dos discípulos e apóstolos, acompanhando Jesus e servindo aos que precisavam de sua ajuda.
Obrigado, Zaqueu! Você agiu com uma simplicidade encantadora. Certamente fez o que fez sem pensar que, com isso, entraria para a História. Mas entrou. Seu nome, hoje, é conhecidíssimo! Você é um exemplo de como devemos responder ao olhar de Jesus e ao convite que ele nos faz para o acolhermos em nossa casa. Com você, aprendemos que vale a pena ser discípulo do Senhor. Obrigado, pois, pelo testemunho que você nos deixou!
Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil.