13 de abril de 2011

A SOCIEDADE QUE DESEJAMOS - PALAVRA DO ARCEBISPO


Dom Murilo S.R. Krieger
Arcebispo de Salvador

Recente pesquisa feita pelos norte-americanos constatou que, em média, uma criança fica cinco horas por dia diante da televisão. São 150 horas por mês; mil e oitocentas horas por ano. Mais: diante de cenas de violência que se renovam nos chamados “filmes para crianças”, e da imoralidade que não tem fim, a criança acaba tornando-se moralmente insensível. E os pais sentem-se agredidos pelos ataques sistemáticos a valores que prezam.

Tudo isso é feito em nome da liberdade de expressão. “O povo quer isso!” Na verdade, é induzido a querer. É natural que, tendo visto desde criança cenas de sensualidade, de egoísmo e violência, o jovem ou adulto, quando convidado a decidir-se diante de possíveis opções, acabe fazendo uma escolha marcada pela superficialidade.

Há mais de duzentos anos, a Revolução Francesa lutou pelo direito da liberdade. A única liberdade usada por boa parte dos programas televisivos é apenas a de usar e abusar do sexo, do corpo ou da violência. Os telespectadores são sistematicamente insultados em sua inteligência, sensibilidade e liberdade. Se reclamarem, ouvirão uma frase que é um novo insulto: “Os incomodados que desliguem a televisão!” Até parece que estamos num país em que os pais têm a possibilidade de ficar o dia inteiro com seus filhos diante da televisão, escolhendo os programas a que estes poderão ou não assistir.

Os canais de televisão são hóspedes permanentes em nossa casa. De um hóspede espera-se educação e respeito. E isso não está acontecendo. Diante desse quadro, como reagir?

Cabe-nos sair de nosso comodismo e participar mais da condução de nossa sociedade. Poderemos reagir, começando com uma decisão que atinge seu objetivo: assumir o compromisso de não comprar os produtos que patrocinam a sensualidade e a violência na TV. Fique atento aos produtos anunciados; comente isso com outras pessoas; funde grupos que levem a idéia adiante. É uma idéia utópica? Utópica, não! Basta olhar o exemplo vindo de países desenvolvidos. Lá, há muito tempo, os cidadãos aprenderam que não podem ficar esperando passivamente uma iniciativa dos que detêm a concessão dos canais de televisão. Esses senhores, deixados tranquilos, não mudarão nada. Só começarão a se movimentar quando seus lucros forem atingidos. Por isso mesmo, naqueles países, donas de casa e pais de família lutam pelos seus direitos. Protestam contra um canal de TV, quando a programação não lhes satisfaz; escrevem para os patrocinadores; manifestam-se para os deputados de seu estado; mandam cartas e e-mails para os jornais; telefonam; e, principalmente, tomam a decisão de boicotar os produtos anunciados. Sabem que estão em questão os direitos de sua família e, por isso, vão à luta. Nós, brasileiros, ficamos esperando por milagres. Ainda não percebemos que o milagre consiste justamente nisto: em usar a inteligência, a vontade e o tempo que o Senhor da vida nos concede para fazer tudo o que estiver ao nosso alcance. “Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer”, cantava Geraldo Vandré, algumas décadas atrás.

Outro passo importante: despertar nos filhos o espírito crítico, formando-o. É necessário discutir com eles as cenas de um filme e as ideias de um programa de TV, ajudando-os a descobrir o que há nele de positivo ou negativo; mostrar-lhes as consequências que surgirão, se determinada mensagem for aceita por todos. Claro que isso dá trabalho e exige o envolvimento dos pais no processo de educação dos filhos. Mas não está justamente aí um de seus mais importantes papeis?

Trabalhemos para que nossos valores sejam respeitados – valores que foram conquistados com muito sacrifício e que ninguém, a título de lucro ou a outro título qualquer, tem direito de nos tirar. Temos o direito de ser respeitados. Queremos, não o triunfo da esperteza (“O importante”, já disse um ex-jogador de futebol em um comercial, “é tirar vantagem em tudo!”) e do ganho fácil, mas o triunfo da verdade e da bondade, da fraternidade e do amor.

Fonte:
ARQUIDIOCESE DE SÃO SALVADOR DA BAHIA
http://www.arquidiocesesalvador.org.br