5 de novembro de 2010

SE CRISTO VIESSE EM NOSSA CASA - PALAVRA DO ARCEBISPO

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Dom Geraldo M. Agnelo
Cardeal Arcebispo de Salvador


O evangelho de hoje, (Lucas 19,1-10), narra a história de um homem, pequeno de estatura, mas poderoso e plenamente realizado na vida: Zaqueu. Rico e não propriamente honesto, carregava dentro de si o tormento dos malfeitos praticados, e queria encontrar Jesus para resolver os grossos problemas de sua consciência perturbada. Apesar de suas fraquezas, buscava uma saída.

Quem sabe se a aventura de Zaqueu pode talvez sugerir-nos o itinerário de conversão interior que também nós devemos percorrer para encontrar o Senhor.

Como chefe dos publicanos, Zaqueu é rico e não se preocupa com os outros. Um dia, porém, experimenta a curiosidade de saber quem é Jesus e se põe na estrada por onde ele devia passar. Jesus o vê, e pede que Zaqueu o convide para almoçar em sua casa. Jesus não precisa que o procurem: viu a infelicidade daquele homem, vai a seu encontro, chama-o. Zaqueu faz tudo para acolhê-lo bem.

Então Zaqueu, durante a refeição, descobre que aceitar Jesus – receber o dom de Deus – comporta uma mudança de atitude e de conduta. Não bastam os desejos: é necessário procurar colocá-los em prática. “Dou a metade de meus bens aos pobres; e se fraudei alguém, restituo quatro vezes o que roubei”. Zaqueu está aprendendo; soube escutar a palavra que Jesus lhe trouxe e se transforma. Jesus comenta: “Hoje a salvação entrou nesta casa”. Tendo em conta isso, precisamos o valor dessa cena.

A salvação de Deus comporta uma resposta humana. Sem o gesto de Zaqueu que muda interiormente (torna-se transparente diante da graça que Jesus lhe oferece), sem o dom de Deus, o convite de Jesus e o almoço seriam inúteis.

Zaqueu não age sozinho: o convite era seu e de toda a casa (toda a sua família). O gesto de justiça e de desinteresse que ele cumpre repercute diretamente sobre os que viviam ao seu redor. Por isso, acolhendo o conteúdo de seu gesto, Jesus declara: “Hoje a salvação entrou nesta casa”.

Isso nos permite fazer algumas anotações importantes: Zaqueu oferecera à sua família o melhor que lhe podia dar, o sentido da justiça, a honestidade humana, um amor aberto para com os outros. Também podemos supor que seus filhos tenham perdido alguma vantagem econômica, devemos admitir que Zaqueu deixou para eles a melhor das heranças. Por isso se pode dizer que, naquela casa (naquela família), entrou a salvação de Deus e nessa se encontra Jesus mesmo. Em sentido mais geral podemos acrescentar que é verdadeira casa de Jesus aquela em que o pai (e a família no conjunto) cumpre a exigência que é representada e retomada em Zaqueu, o velho publicano.

A salvação cristã comporta algumas conseqüências sociais e econômicas. Talvez, Zaqueu tenha devido deixar a sua velha profissão, perder certamente uma parte do seu dinheiro, mas encontrou a justiça (restituição) e o amor (distribuição de seus bens). De um ponto de vista autenticamente humano, o que ganhou vale muito mais do que perdeu.

Seria ingênuo querer transferir aos nossos dias as particularidades da conversão de Zaqueu: é diversa a situação social e são diversos os tempos. Podemos, porém assegurar que, onde a mensagem de Jesus não repercute sobre o modo de empregar os bens, terá perdido toda a sua exigência e toda a sua carga.

Também nós como Zaqueu temos o coração apegado às nossas coisas. Quem sabe se provamos também nós a crise benéfica, a necessidade de encontrar o Senhor para voltar página e recomeçar, sobre novas bases com maior generosidade e disponibilidade, a nossa existência.

Converter-se é pôr-se a pensar em um modo novo: é colocar Deus e a sua vontade em primeiro lugar. Converter-se é livrar-se daquilo que nos pesa: o egoísmo, o ajuntar quanto mais dinheiro possível, o desejo de aparecer, de dominar os outros. Quem se converte encontra a harmonia com Deus, consigo mesmo, com as pessoas.

O publicano Zaqueu, no momento em que decide restituir e doar, se sente filho de Deus, se sente finalmente contente, porque se sente filho de Deus e irmão entre irmãos. “O cristão é alguém a quem Deus confiou todos os outros homens”.

Deus habita lá onde o deixam entrar.

Fonte:
ARQUIDIOCESE DE SÃO SALVADOR DA BAHIA
http://www.arquidiocesesalvador.org.br