29 de setembro de 2010

PARÁBOLA DO RICO E DO BANDIDO - PALAVRA DO ARCEBISPO


Dom Geraldo M. Agnelo
Cardeal Arcebispo de Salvador

O tema da parábola deste domingo, Lucas 16,19-31, é muito simples. Fala de um rico que goza a sua riqueza material, intelectual ou religiosa, e deixa morrer à sua porta um pobre faminto, enfermo e abandonado. No fundo, quem se vangloria de ser rico diante de Deus na realidade é pobre. Logicamente a sua vida acaba no sepulcro que é o inferno do insucesso. O pobre ao invés aberto à grandeza de Deus que cuida de todos os enfermos e marginalizados da terra; por isso, com a sua morte, se revela o seu tesouro lá em cima no seio de Abraão, que é o cumprimento de todas as promessas.

Neste cenário é relatado o diálogo que Abraão sustenta com o rico. O rico supõe que sua sorte seja devida à ignorância. Enquanto está no mundo sabe como estão as coisas. Por isso pede que sejam advertidos seus parentes na terra acerca da verdade sobre a pobreza e sobre a riqueza. A resposta do patriarca é inflexível: basta Moisés e sua palavra. Se a sua verdade não convence, também um milagre sobre a terra não serviria para nada. Dizia o psicólogo americano William James: “O uso melhor da vida é empregá-la por qualquer coisa que dure mais que a vida mesma”.

A parábola se desenrola em três quadros. O rico na terra está tranqüilo e seguro em sua casa, come e bebe em alegre companhia. Lázaro porém jaz por terra fora da porta, na estrada, exposto aos perigos e molestado pelos cães, se contentaria com as migalhas da lauta mesa, mas não lhe dão. Rico e pobre são vizinhos, mas o rico não concede ao pobre nem um olhar.

Em segundo lugar, se faz uma inversão. Lázaro e o rico gozador morreram. Estão no além. Lázaro o pobre está no ceio de Abraão, feliz no paraíso. O rico porém está no inferno, no fogo, na sede, no tormento. Entre os dois existe um abismo intransponível, mas os dois se podem ver.

A seguir, o diálogo à distância. O rico finalmente toma consciência que Lázaro existe, e que tornou-se importante. Dirige-se ao patriarca Abraão pedindo que mande Lázaro dar-lhe ao menos uma gota de água. A resposta é negativa: a situação agora é irreversível, entre condenados e salvos não existe mais comunicação.

O sentido da parábola pode ser procurado nas palavras ditas por Abraão no que diz respeito aos cinco irmãos do rico esbanjador: “Se não escutam Moisés, nem mesmo escutarão um morto que voltasse entre os vivos”. O rico compreendeu tudo muito tarde, somente no inferno.

O rico não é condenado simplesmente por sua riqueza, mas porque não soube entender a vida como um dom e não ofereceu a sua ajuda ao pobre enfermo e faminto que estava morrendo à sua porta. A riqueza em si não é um pecado, mas é pecado a riqueza que deixa os pobres morrerem; é pecado a falta de solidariedade que divide os homens e consentindo a alguns nadarem na abundância e a outros perecerem num mundo de fome e de miséria.

A parábola assegura que o rico desceu ao inferno. Isto quer dizer que a sua vida terminou em um insucesso. Fechou-se no seu interesse e na sua riqueza de modo tal que, chegando à luz de Deus que é dom de amor, encontrou-se inútil e vazio e por isso condenado. Sob esse aspecto, a condenação não indica um castigo de Deus que se impõe e dita o seu juízo arbitrário ao termo da nossa vida; a condenação consiste no destino do homem que escolheu uma forma de existência contrária ao mistério de Deus e da vida: ficar privado da graça do amor de Deus que salva, viver sem o encontro de amor com os outros.

O pobre entregou sua vida nas mãos dos anjos de Deus, que são o sinal do seu amor, da sua palavra e da sua influência sobre nossa vida. O pobre não se salva pelo simples fato que foi infeliz neste mundo, mas porque está aberto a Deus e se deixa guiar pela força de seu amor e pela sua graça.

Em todo esse relato, observamos a existência de uma escatologia individual. Não parece necessário esperar o fim do mundo para dar o prêmio ou aplicar o castigo. A própria morte incluída no contexto do reino de Deus, revela os mistérios mais profundos do homem. É uma morte que nos transporta para o seio prometido da vida ou uma morte que nos afunda no abismo do insucesso (cf Lucas 23, 43; Atos 7, 54-60).